| O SALDANHA DESCONHECIDO (1951) |
Em janeiro de 1951, João Saldanha foi designado para o comitê estadual do Paraná. Chegava ao fim o Governo de um tipo corrupto e sanguinário. Moisés Lupion (PSD) foi o responsável pelo desencadeamento da luta entre posseiros e grandes grileiros pela propriedade de terras no norte do Estado, o chamado Norte Novo. A zona conflagrada se situava ao sul do rio Paranapanema (fronteira com São Paulo), num perímetro formado pelos municípios de Jaguapitã, Guaraci, Centenário do Sul e Porecatu. Essas terras faziam parte de uma antiga concessão da Companhia Colonizadora Alves de Almeida & Irmãos. Em junho de 1934, o interventor Manuel Ribas (1932-1945) anulou a concessão e loteou as terras, a preço barato, para quem quisesse trabalhar. Como tantos outros antes dele, José Bilar (“Espanhol”) chegou à região em 1940. Cito outros: Francisco Lourenço Figueiredo (“Chico Quiabo”), Herculano Alves de Barros e Lázaro Bueno de Carvalho (“Lazão”). A maioria comprou sua terra, outros eram “grileiros”, mas de boa fé. Dos seus ranchos saíam caminhões transportando peroba e outras madeiras de lei para Assis ou São Paulo. Também tinham áreas de plantio: não muito café, mas milho abundante. Também criavam porcos. Era uma gente valente, com boa mão para plantar. Em 1944, cerca de quinhentas famílias constituíram uma comissão para cobrar a entrega dos títulos de propriedade. Dessa comissão, além de José Bilar e Herculano de Barros, fizeram parte Hilário Gonçalves Pinha (filho da cunhada de Bilar) e Manoel Marques da Cunha. O paulista Hilário era dono de 30 mil pés de café, 300 cabeças de boi, 800 cabeças de suínos, um trator e dois bons caminhões de segunda mão. Manuel Ribas comprometera-se com os camponeses. Entretanto, o quadro mudou com a posse de Lupion (12/03/1947), ex-procurador de Jeremias Lunardelli, o “Rei do Café”. Lupion assinou um decreto à feição da grilagem de Lunardelli e pôs à sua disposição a Força Pública para obrigar os camponeses a “abandonarem” as terras cuja propriedade, depois, iria requerer. Cada posseiro expulso rendia 30 mil cruzeiros ao tenente da polícia João André Paredes. No quadrilátero compreendido entre os rios Paranapanema e Centenário, a estrada Porecatu-Centenário do Sul e o ribeirão do Tenente, um punhado de camponeses mostrou à massa que, organizada, podia enfrentar os pistoleiros, os donos de cartório, os juízes corruptos e a polícia militar. Um deles, o paraibano Francisco Bernardo dos Santos, enfrentou-os com arma na mão. Em março de 50, ele fugiu para o DF para pedir providências a Dutra e aos congressistas. Voltou de mãos vazias. Em Regente Feijó, foi preso pela polícia de Ademar de Barros e entregue ao tenente Paredes, vindo a morrer nas mãos de José Celestino, jagunço de Lunardelli, depois de haver passado vinte dias amarrado no fundo de um jipe. Os líderes dos posseiros buscaram a ajuda do PCB. Em novembro de 1948, decidiram armar-se para resistir. Formaram dois grupos, cada um com doze homens. Um comandado pelo “Espanhol”, o outro por Hilário (“Itagiba”), militante do PCB desde 1947. Em 9 de outubro de 1950, seguindo ordens do secretário de segurança, Libânio Pacheco, um destacamento chefiado por Paredes invadiu a propriedade de Chico Quiabo, assassinando três trabalhadores. Mas no dia seguinte, quando o caminhão policial corria pela estrada em direção a outra posse, topou pela frente com um grupo de camponeses armados, travando-se então cerrado tiroteio. Findou o combate quando o veículo conseguiu fugir em desabalada carreira. Saldo: alguns soldados mortos, outros feridos. Nenhuma baixa entre os camponeses. No pleito do dia 3, o PSD fora derrotado pela coligação UDN-PR-PST-PRP. O então deputado federal Bento Munhoz da Rocha (UDN) prometera garantir a propriedade dos posseiros. Eleito, recebeu-os (graças a Pomar) em seu gabinete e reafirmou o compromisso. Mas ele também era amigo de Lunardelli, tanto que, em sua companhia, participou da Conferência Cafeeira de Baton Rouge, nos EUA. Precavidos, os “intrusos” (assim chamados por O Globo) não largaram as armas, muito pelo contrário. João Saldanha foi então deslocado para Londrina, trabalhando na sucursal do diário paulista (comunista) Hoje. João e Hilário reuniam-se fora da região conflagrada: “Nós íamos para outra região e nos reuníamos no mato mesmo, ou num ranchinho, numa casinha. Saldanha era muito inteligente, defendia a orientação do Partido a ferro e fogo, mas era um cara ponderado. E era um bom papo. Cada reunião que ele fazia, no almoço era uma festa. Nós tínhamos apoio da população. Isso era muito importante. Aonde nós chegávamos tinha comida, churrasco, tinha festa. Do Partido eram seis ou sete companheiros. Na verdade, chegamos a ter dez do Partido. Estes ficaram militantes, como foi o meu caso”. No início de fevereiro de 1951, os posseiros passaram à ofensiva, atacando com sucesso a sede da Fazenda Tabapuã, “pertencente” a Jerominho (Jeronymo Inácio de Souza), estreitamente ligado a Lunardelli, amigo de Paredes e Celestino. Dias antes, este havia caído numa emboscada dos posseiros. Depois da deserção de Paredes (após a emboscada de outubro) e das mortes de Celestino e seu comparsa Luiz Menezes (Lalzinho), Jerominho passara a chefiar a jagunçada. Em 6 de maio, na fazenda do grileiro Clemente Vilela Arruda, os camponeses mataram a tiros o administrador Patrício Severo, além de ferir outros três jagunços. Munhoz da Rocha decidiu agir. Assinou um decreto de desapropriação das referidas terras propositadamente confuso e que ele próprio não cumpriu. E nomeou uma comissão de donos de terras e interessados em grilos, comissão que jamais foi a Porecatu. Em março, ordenou que a polícia ocupasse Londrina, a fim de respaldar a tal comissão, que chegou a oferecer aos posseiros a troca de suas excelentes terras (roxas) por outras a sudoeste, em Campo Mourão, distantes (mais de 100 km) e piores. Nenhum quis contato com a comissão. Dois dos seus integrantes, os fazendeiros Aldovandro Gonçalves Magalhães e Clemente Vilela, estavam jurados de morte. Mas havia mais: os integralistas Edgar Távora e o padre Albino, este, grileiro feroz. Os governadores de São Paulo e Paraná (leia-se UDN), com a cobertura de O Globo e similares, atribuíram ao conflito um caráter que ele não tinha. Repetindo 1935 e 1937, taxaram-no de levante comunista, identificado com a “ameaça” na Coréia. O Globo, que pregava o envio das tropas à Coréia, chamou o famoso quadrilátero de “Coréia Brasileira”. As forças que desejavam derrotar o movimento de resistência à participação do Brasil no massacre dos coreanos eram as mesmas que pretendiam justificar o massacre dos vermelhos no Paraná. Então, os enviados especiais de O Globo trouxeram do front notícias terríveis: suspeitava-se que um dos procurados, um tal de Hilário, seria, na verdade, ex-capitão do Exército paraguaio. Num “furo de reportagem”, O Globo soube pela cúpula da polícia paranaense que o Departamento Federal de Segurança Pública distribuíra na região boletins de Gregório Bezerra e Agildo Barata com a seguinte legenda: “Cuidado com eles! São traidores da Pátria! Querem entregar o nosso Brasil à Rússia!” Planos quiméricos foram denunciados: armamento, barricadas. Em Londrina, vivia-se sob estado de sítio de fato. Na madrugada de 17 de junho, onze militantes do PCB foram detidos em suas residências e levados para local desconhecido. Seu crime: promover agitações em favor dos “intrusos”. Entre os presos, dois vereadores, um advogado, um engenheiro, um professor secundário, um corretor, um comerciante, etc. Houve protestos da Associação Médica de Londrina, da Federação de Mulheres do Paraná e da Câmara Municipal de Curitiba. Repercutiu o manifesto “Povo da Minha Terra”, da vereadora comunista, em Londrina, Maria Olímpia Carneiro Mochel. Entretanto, a trama prosseguiu. Na madrugada de 20, tropas da polícia partiram de Londrina em direção a Porecatu. Enquanto isto, a Força Pública paulista ocupou a margem norte do Rio Paranapanema. Na madrugada do dia 25, armada até os dentes, a coluna chefiada pelo major João Alencar Guimarães partiu para o sertão. Entretanto, por temor às emboscadas, não ousou penetrar na mata. No dia 27, O Globo lamentou: “Ao contrário do que denunciavam os preparativos bélicos, a entrada da tropa policial no interior da Coréia Brasileira não foi além de uma passeata. Percorreu as estradas de Porecatu, Vila Progresso, Centenário do Sul, Ribeirão do Tenente, às margens do Paranapanema, encontrando apenas, colonos assustados”. Neste dia, o secretário de segurança do Paraná, coronel Albino Silva, regressa a Curitiba. Fracassou o novo Plano Cohen. O justiçamento do jagunço Celestino constituiu-se num episódio importante. João Saldanha chegou a conhecê-lo: “Vi estes caras pessoalmente em Centenário, centro da zona conflagrada. Onde entravam causavam medo. Mas também ódio. Eram cruéis. Mataram e torturaram muita gente. Andavam como bandidos mexicanos: de arma à bandoleira, e duas cartucheiras entrelaçadas pelo peito. (...) O que fizeram é inenarrável”. Celestino foi liquidado numa operação comandada por Hilário: “Havia um matador profissional, que ganhava para liquidar e que chegou a comandar a polícia militar. Deram pra ele dezoito homens. Um cara de influência e muito capaz. Ele botava fogo na casa, estuprava mulheres, ameaçava fuzilar, etc. A minha casa ficou em cinzas. Os paióis de cereais, de arroz, de milho, para passar um ano, dois. Botaram fogo. Era um terror. Uns amigos nos informaram que ele tinha uma amante, muito bonita, perto da cidade. Essas coisas funcionam no campo. O cara tinha um sinal de buzina e de tiro. O cara deu dois tiros e tocou a buzina. De tal maneira que nós dissemos: Bom, é hoje. Fomos lá, fizemos o cerco e pegamos o cara na saída. Saldanha não estava nisso. Foi uma equipe de quatro. Celestino estava com esse menino na garupa do cavalo, que vinha para trazer o animal para casa enquanto ele ia pegar a condução para a cidade. O fato em si deu muita repercussão porque nós acertamos vinte e dois tiros (contamos os cartuchos). Foram quarenta e quatro buracos e a criança, um molequinho, não levou um arranhão. Nem o cavalo. Esse guri se jogou, é evidente, mas os primeiros tiros foram mortais no cara, quando o guri estava agarrado na cintura dele. Acertamos tudo nele. Nós atirávamos muito bem. A gente cortava cipó com tiro de fuzil. Eu matava passarinho de winchester, com uma bala. Toda a nossa turma era muito boa de tiro. Nós escolhemos esses quatro que foram lá, quatro caras que não tremiam. Nós sabíamos que a missão era complicada, que ninguém podia vacilar. Tínhamos que acertar mesmo. Não teve um erro. Além de tudo, havia um ódio, porque esse cara era bandido de sangue-frio. Então tínhamos que matar esse cara a sangue-frio mesmo. Não demos tempo a ele, que morreu com o revólver na mão. Deu ainda dois tiros, mas já estava morrendo. Eu digo tudo isto porque eu era o comandante. Éramos eu e mais três. Isto foi em 1951”. A luta armada terminou após a assinatura de um acordo. Hilário esclarece: “Tenho a impressão de que foi em setembro ou outubro [de 1951]. Botamos a nossa turma para negociar. Não eram do Partido, mas simpatizantes, gente nossa, comerciantes, vereadores das cidades próximas (Centenário, Londrina). Montamos uma comissão onde o Saldanha jogou um papel decisivo. A luta em si foi parcialmente vitoriosa, pois nós conseguimos, mais ou menos, assentar cerca de mil famílias, com título de propriedade – estão lá até hoje – uma parte delas na própria região. Só que reduziram as áreas para dar para mais gente. Receberam terra legalizada. Hoje estão todos bem de vida, fazendeirinhos. No meu caso e no caso da minha família toda (os tios, primos e amigos), nós fomos levados para Paranavaí. Eu recebi trezentos hectares de terra, embora de qualidade inferior à de Porecatu, que era de primeira qualidade (terra roxa), própria para cana-de-açúcar. Enquanto não assentaram, não indenizaram as famílias que foram transferidas (um valor pequeno, mas que ajudou), continuamos a luta. Quando todo mundo foi transferido, encaminhado e recebendo as terras, aí, nós desarmamos o grupo, que nunca passou de 18 homens”. Em fins de 1951, Saldanha foi transferido para São Paulo. Mas isto é assunto para outra crônica. |
| O SALDANHA DESCONHECIDO (1950) |
João Saldanha mal retornara ao Brasil quando, na madrugada de 25 de junho de 1950, o exército sul-coreano violou a fronteira setentrional (1-2 km). Em fevereiro de 1945, em Yalta, a União Soviética se comprometera a lutar contra o Japão em dois ou três meses após a capitulação da Alemanha. E de fato, em 5 de abril, denunciou o pacto de não-agressão com Tóquio. Em 9 de agosto, o Exército Vermelho iniciou a ofensiva contra o exército de Kwantung (mais de 1,2 milhão de soldados). Já no dia 30, após libertar o norte e o nordeste da China (área do tamanho da Alemanha, Itália e Japão somados), varreu os japoneses do norte da Coréia até o paralelo 38. Todo o armamento e munições tomados do exército de Kwantung foram entregues ao Exército Popular de Libertação da China. A Coréia, entretanto, foi dividida em duas zonas: norte, soviética; sul, ianque. Como era esperado, no Norte ocorreram reformas democráticas. Mas a situação era absolutamente inversa na zona controlada pelos EUA, que colocam no poder Sygman Rhee, ex-colaborador dos japoneses. Fruto do esforço conjunto das forças democráticas do norte e do sul, em agosto de 1948, houve eleições para a Assembléia Popular Suprema, cujo resultado evidenciou claramente o desejo de construir um país unido, independente, pacífico e democrático. Em setembro, a Assembléia proclamou a República Democrática Popular da Coréia, aprovando a Carta que referendava as conquistas dos trabalhadores norte-coreanos e estabelecia o socialismo como objetivo. A Assembléia solicitou à URSS e aos EUA a retirada simultânea de suas tropas. O Exército Vermelho retirou-se em três meses. Os EUA não só mantiveram 500 assessores militares como iniciaram os preparativos da agressão ao norte. Em junho de 1950, a Assembléia Popular Suprema da RDPC proclamou a fusão dos órgãos estatais das duas zonas com vistas às eleições unificadas. Sygman Rhee reagiu com a guerra civil. O exército norte-coreano rechaçou o invasor e o perseguiu até Seul. Foi a senha para Truman intervir, preservando seu fantoche e fortalecendo o regime de Chiang Kai-shek, então refugiado em Taiwan, prontamente ocupada pela 7ª Esquadra e a 13ª Frota Aérea. Também interveio nas Filipinas e na Indochina. Em 27 de junho, os EUA começaram a bombardear o território norte-coreano. Horas depois, obtiveram do Conselho de Segurança da ONU uma resolução ilegal (sem a URSS) que recomendava a ajuda a Seul para “repelir o ataque” da Coréia do Norte. Truman enviou um exército de 450 mil homens. Em 7 de julho, o mesmo Conselho recomendou que os intervencionistas, sob a bandeira das Nações Unidas, fossem postos à disposição de um comando unificado “sob a autoridade” do general Mac Arthur. Em 15 de setembro, os EUA e seus satélites (20 países) atravessaram o paralelo 38. O objetivo era liquidar as conquistas populares do norte e constituir uma base para o ataque à URSS e à China. Isto provocou o clamor mundial. Os sul-coreanos se incorporaram aos milhares às tropas norte-coreanas. Guerrilheiros do norte infiltraram-se no sul, recebendo apoio dos camponeses em troca da promessa da reforma agrária e da reunificação do país. Os EUA passaram a cometer atrocidades, atirando em refugiados e mantendo sob severa vigilância as populações das zonas de combate. Era freqüente o uso do napalm e de armas biológicas. Entretanto, o Exército Popular norte-coreano recebeu dos países socialistas armas e munições, meios de transporte, máquinas, roupas e alimentos. A União Soviética não reconheceu as quatro resoluções tomadas na ausência do seu delegado e da RDPC. Em julho, a Índia propôs o cessar-fogo e a abertura de conversações. Em agosto, a URSS voltou a participar dos trabalhos do Conselho de Segurança, propondo a evacuação das tropas estrangeiras e a negociação do conflito pelos próprios coreanos. A aviação ianque bombardeou a Manchúria (31 de agosto) e o território soviético (4 de setembro). Até 31 de dezembro, serão 320 ataques. Em 25 outubro, os voluntários chineses, sob o comando do general Peng Teh-huai, entraram na Coréia. Neste mês, URSS, Ucrânia, Bielo-Rússia, Polônia e Tchecoslováquia propuseram o cessar-fogo, a retirada dos intervencionistas e a celebração de eleições para a Assembléia Nacional. Em janeiro de 51, seguiram-se propostas similares da China e de 12 países árabes. Assim que retornou a Paris, João Saldanha foi convidado pela Federação Mundial da Juventude Democrática (criada em Londres, em novembro de 1945) para participar do aniversário da revolução chinesa, em 1° de outubro. No seu grupo estava Sandro Savério: “Saldanha, meu tio quer te contratar para participar do nosso grupo de trabalho”. Saldanha aceitou na hora: “Fomos à festa da revolução chinesa. Mao Tse-tung apertou a mão de um por um. No dia 2 de outubro, fui operado do apêndice no Hospital de Pequim”. Este retorno à Ásia figura nas suas memórias: “Eu estava indo para a China com mais uns quinze jornalistas, através da Sibéria. Estávamos em agosto para setembro, mas mesmo assim faz muito frio em algumas partes da Sibéria. Eles chamam de “Outono Dourado”, mas para mim já era um bom inverno. E foi na República dos Buriato-MonGóes, em Ulan-Ude, que estávamos passando. Em todas as cidades mais importantes apareciam nas estações umas cinqüenta pessoas para nos saudar. Não raro tínhamos pelo menos dois discursos. Um deles e outro nosso. Estava voltando para a China, onde teria de chegar antes do 2 de outubro. Dava tempo de sobra, e isto realmente aconteceu”. Em seu caminho até Ulan-Ude, ele conheceu as cidades de Uralsk, Magnitogorsk, Omsk, Tomsk, Krasnoyarsk e Irkutsk, esta, às margens do Lago Baikal: “A gente tem idéia da Sibéria gelada. Mas fui surpreendido por uma região bem adiantada e com belos campos e bosques. (...) Garanto que é muito bonita. Passei por ali quatro vezes, para lá e para cá, em viagens de Moscou a Pequim (parando, é verdade) em mais ou menos quinze a vinte e três dias. Parece que a viagem normal é de cinco ou seis dias”. Saldanha orgulhava-se de ter sido o primeiro brasileiro a denunciar os crimes de guerra cometidos pelos EUA: “Mac Arthur queria ir muito longe e chegou até as fronteiras do rio Yalu, divisa da Coréia do Norte com a China. Ali foi o meu pouso durante algum tempo. E também em Pequim, onde se tinha mais noticiário do que em Pyong Yang ou em Seul. (...) A guerra da Coréia foi um campo experimental de armas inventadas no pós-guerra. Porém, as que mais sensação causaram foram as armas de guerra química e da guerra bacteriológica. Fui a Pyong Yang para isso. Estavam lá diferentes comissões internacionais. A Cruz Vermelha Internacional, principalmente. Não foi difícil constatar a presença das tais armas bacteriológicas. Milhares de insetos contaminados para tentarem a guerra bacteriológica”. Em 15/09/1952, uma comissão de cientistas de renome internacional, entre eles, Samuel Barnsley Pessoa, catedrático de Parasitologia da USP, divulgou em Pequim um amplo relatório de denúncia da guerra bacteriológica. A comissão percorrera, entre 23 de junho e 6 de agosto, as regiões atingidas, na Coréia e na Manchúria, fazendo centenas de entrevistas e exaustivas provas em laboratório. Em 1/02/1951, a ONU acusou a China de “agressão” ao “empreender hostilidades contra as forças das Nações Unidas”. Em junho de 1951, a URSS, abrindo mão da exigência de evacuação simultânea das tropas estrangeiras da Coréia, propôs a retirada recíproca “das tropas de ambos lados do paralelo 38”. Em 10/07/1951, foram abertas conversações, várias vezes interrompidas por provocações dos EUA. Em abril de 1953, URSS, Polônia e outros países conseguiram aprovar na VII Sessão da Assembléia Geral da ONU uma resolução que serviu de base para a assinatura do armistício, em 27/07/1953. No trajeto de volta da China até o Brasil, Saldanha transitou pela Tchecoslováquia: “É um país admirável. E é um país lindo. Praga pode ser uma das mais belas cidades da Europa. O país é conhecido por seus castelos medievais. Os tchecos tiveram cidades inteiramente arrasadas. Foi o caso de Lidice, pequenina, de pouco mais de mil habitantes, a poucos quilômetros do aeroporto internacional. Poucos km, dois ou três. E se pode ver apenas um monumento e uma placa com dizeres lacônicos explicando que ali existia antes uma cidade chamada Lidice. (...) Mas Lidice é apenas uma placa rememorando uma das mais cruéis façanhas do nazismo”. Durante o I Festival Mundial da Juventude, em julho-agosto de 1947, em Praga, muitos dos seus 17 mil participantes, vindos de 71 países (na maioria, antigos soldados e guerrilheiros), ajudaram a construir casas e ruas da nova Lidice, a menos de 1 km do antigo vilarejo. Saldanha voltou na segunda quinzena de outubro. As eleições haviam se realizado no dia 3. João soube então que seu irmão Aristides fora um dos três vereadores comunistas eleitos sob a legenda do PRT. Além dele, o médico Milton Lobato (que renunciou em favor do motorneiro da Light, Antenor Marques) e Elizeu Alves de Oliveira, principal líder dos motorneiros. Para a Câmara Federal, fora eleito o marceneiro Roberto Morena (um dos líderes da greve geral de 1932, em São Paulo, e um dos fundadores do MUT). Pela legenda do PST, o comunista Paulo Cavalcanti reelegeu-se deputado estadual, o mais votado no Recife. Nas eleições de 1950, os advogados do Partido tiveram de impetrar 230 habeas corpus para soltar pessoas presas quando realizavam comícios e panfletagens. No pleito presidencial, venceu a chapa Getúlio Vargas-Café Filho (PTB-PSP). As forças em que se apoiava iam do proletariado a setores da burguesia. Seu programa podia ser sintetizado nos seguintes pontos: manutenção do regime democrático; monopólio estatal do petróleo, soberania sobre os minerais estratégicos; contra a internacionalização da Amazônia. Pela primeira vez na história, a situação perdeu uma eleição presidencial. Por quê? Porque Dutra, por seu entreguismo absoluto, torpeza policial e inépcia administrativa, não pôde: a) impedir a candidatura de Vargas; b) apresentar um nome capaz de derrotá-lo nas urnas; c) mobilizar forças militares para impedir sua posse. Em suma, a posse de Getúlio representou a derrota dos golpistas de outubro de 1945. Em 30 de outubro, na capital paulista, João Saldanha foi eleito delegado ao II Congresso Mundial da Paz, em Varsóvia (16 a 22 de novembro). Com ele, entre outros: Alvaro Moreyra, Bacelar Couto (bancário, presidente da União Sindical no DF), Branca Fialho (presidente da Federação das Mulheres do Brasil), Camargo Guarnieri (maestro), Graciliano Ramos, Oscar Niemeyer e Paulo Cavalcanti. O II Congresso (2.065 delegados de 81 países) exigiu da ONU a evacuação das tropas estrangeiras da Coréia, o fim da intervenção ianque em Taiwan e da agressão francesa ao Vietnam. Também condenou a remilitarização da República Federal Alemã e do Japão. Reiterou o Apelo de Estocolmo (18/03/1950) contra a guerra e a bomba atômica, subscrito por 500 milhões de pessoas (cerca de metade da população adulta da Terra). Apesar de proscrito, em 11 meses, o PCB recolheu 4,2 milhões de assinaturas. O Apelo serviu de respaldo para o Conselho Mundial da Paz (organismo dirigente eleito em Varsóvia) aprovar, em fevereiro de 1951, um apelo às grandes potências (China, EUA, França, Inglaterra e URSS) para firmarem um Pacto de Paz. Em janeiro de 1951, Saldanha foi designado para o comitê estadual do Paraná. Mas isto é assunto para a próxima crônica. |
| O SALDANHA DESCONHECIDO (1949) |
No ano de 1949, Gaspar Dutra completou seu penúltimo ano de governo, marcado por desastrosa gestão (energia, minérios, concessões, investimentos, Amazônia, etc.). Em janeiro de 1946, o Brasil possuía mais de 320 milhões de toneladas de ouro nos cofres. Em dezembro de 1948, tais reservas caíram para cerca de 281 milhões. Um patrimônio dilapidado pelo crescimento da importação de equipamentos industriais em geral (não substituídos durante a guerra) e de bens de consumo (geladeiras, automóveis, uísque, etc.). Nos anos 1947-1949, o rombo no balanço de pagamentos superou US$335 milhões, que o superávit comercial (1948-1949) não pôde cobrir. Os compromissos foram então cumpridos com empréstimos e a entrada de capitais estrangeiros, formando um círculo vicioso. Criminosa foi a solução aceita para receber os créditos com Inglaterra e França, então cerceadas pelo Plano Marshall. A Inglaterra liquidou seus débitos vendendo empresas ferroviárias sucatadas ao Brasil em condições absolutamente vantajosas (para ela). A Duperial (leia-se Orquima, ou Augusto Frederico Schmidt) exportava areias monazíticas para os EUA, comprometendo a segurança nacional. Em política externa, Dutra atrelou o Brasil aos EUA, cuja propaganda brandia a quimera de que a defesa da paz, núcleo da política externa da URSS, servia tão somente para “ganhar tempo”. Em julho de 1941, Truman, então senador, declarara: “Se virmos que a Alemanha está a vencer, temos de ajudar a Rússia, mas se for a Rússia que estiver a vencer, então temos que ajudar a Alemanha e, assim, eles que se matem o mais possível”. Em março de 1946, discursando nos EUA, Churchill defendera uma “guerra política” à URSS. Então, em dezembro do mesmo ano, Inglaterra e EUA fundiram as zonas alemãs sob seu controle. Em poucos meses, a França fez o mesmo. Em junho de 1948, os três países reformaram o marco de surpresa, objetivando abrir uma crise na zona soviética, objeto de transformações socialistas. Não tardou a surgir a República Federal da Alemanha (setembro de 1949), consumando a divisão do país. Em 1951, seria reconstituído o exército alemão, violando os acordos da Conferência aliada de Potsdam (julho-agosto de 1945). Em 1954, numa outra violação, a RFA ingressaria na Organização do Tratado do Atlântico Norte. A OTAN foi fundada em 4/04/1949, numa ampliação do Pacto de Bruxelas (1948). Nela ingressaram EUA, Itália, Canadá, Noruega, Dinamarca, Islândia e Portugal. A formação do bloco militar anti-soviético significou a travessia do Rubicão nas relações internacionais no pós-guerra. Em março de 1949, Truman afirmou: “A liberdade é mais importante do que a paz”. No mês seguinte, em 7 de abril, ele admitiu o uso da bomba atômica para “preservar a paz”. Eclodiu então uma onda de protestos contra a gestação da III Guerra. No dia 9, no Distrito Federal, foi realizado o 1° Congresso Brasileiro de Defesa da Paz, na sede da UNE, por iniciativa da Organização Brasileira de Defesa da Paz e da Cultura. De sua direção faziam parte, entre outros: Alvaro Moreyra, Aparício Torelli, Astrojildo Pereira, Caio Prado Júnior, Cândido Portinari, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos e Oduvaldo Vianna. Paulo Cavalcanti também participou do ato, caindo vítima da repressão policial: “À última hora, já a UNE repleta de delegações de fora, seu auditório pequeno para tanta gente, veio a notícia de que o presidente da entidade, o estudante Genival Barbosa, estava preso no gabinete do ministro da Educação, Clemente Mariani. As autoridades federais queriam forçá-lo a mandar evacuar a sede da organização, desautorizando a reunião dos partidários da paz. Como não o conseguissem, deram ordens à polícia política para dissolver a manifestação. Eu estava na mesa diretora dos trabalhos, mal iniciada a sessão de abertura, quando o grande salão da UNE foi invadido pelo Delegado Cecil Borer e seus policiais. Reconhecido pelos cariocas, Borer sacou do revólver e dirigiu-se à presidência dos trabalhos, então entregue ao médico Mário Fabião. Nesse momento, a massa começou a vaiar Borer e seus agentes. Soaram os primeiros tiros, a multidão comprimindo-se entre as cadeiras, procurando sair do alcance das balas”. No dia seguinte, o Jornal do Brasil divulgou a versão de que compareceram ao ato “trezentas pessoas entre as quais conhecidos comunistas e tidos pelas autoridades como perigosos elementos de agitação”. Tratava-se de ato subversivo “organizado por elementos comunistas ou simpatizantes ao qual aderiram inúmeras pessoas de boa-fé. Sua finalidade, sob o disfarce de ser feita intensa campanha para evitar uma nova guerra, outra não era senão obedecer às ordens do Kominform de agitar as massas contra o recente pacto do Atlântico, fazendo a Rússia Soviética e seus satélites passarem como vítimas de um suposto complô internacional, visando fazer-lhes a guerra”. O JB ignorava que os EUA aprovaram, em 3/11/1945, o plano de bombardeamento da URSS, sob o título “20 alvos atômicos da União Soviética”? O plano recomendava: “A principal característica da arma atômica é a capacidade de liquidação de grandes aglomerações, particularidade que deve ser utilizada, bem como outras qualidades desta arma”. Nas cidades listadas viviam 13 milhões de pessoas. Mas em 25/09/1949, a agência soviética TASS noticiaria que a URSS testara sua primeira bomba atômica. A política ianque “desde posições de força” não teria mais qualquer base real. O JB alegava que os pacíficos policiais (total de 31) foram agredidos de surpresa com cadeiras, socos e pontapés por uma “guarda de choque comunista” e, por causa disso, foram obrigados a disparar balaços para todos os lados. Baseado nos informes da polícia política, o JB relacionou alguns dos feridos, um deles, João Saldanha, contundido no tórax. Após o massacre, foram presas cerca de cem pessoas. Sigamos o relato do próprio Saldanha: “O cara deu um tiro à queima-roupa, nas costas. A bala calibre 32 bateu na ponta da costela do lado esquerdo. O cara tentou dar no coração, mas a bala resvalou no osso, atravessou a parte côncava da coluna fazendo risco preto, e foi se alojar na pleura do pulmão direito. Meu instinto de sobrevivência foi maior: pulei pela janela dos fundos, caí num terreno baldio. Pulei um muro, mas não agüentei: fiquei estatelado no chão, ensopado de sangue, aos pés da polícia. Semiconsciente, ouvi: Leva este para o Pronto-Socorro. (...) Quatro, cinco horas depois de eu levar o tiro, me colocaram numa sala de cirurgia. Tiraram uma radiografia, e nada de operar. Apesar dos remédios, eu estava lúcido, vendo uma porrada de guardas com cara feroz. Pensava: Vão sumir comigo. Era no andar de cima e fui num carrinho. A camisa estava furada e ficou lá na Emergência, mas o paletó, com um baita furo nas costas, foi pendurado na maca. Subi e fui para a sala de raios X. Depois, novamente fui para a sala de cirurgia. Mexeram na coisa, mas sem tocar na bala ou no pulmão. Nesse meio tempo, nova radiografia. Apareceu um cara e disse que voltava. Na porta ficou um tira. Mas havia uma janela que dava para uma varanda do segundo andar. Ou era o terceiro. Senti o drama, pois já sabia do resultado do entrevero. Pulei da maca e doeu um pouco as costas. Mas não era dor muito forte. Eu estava meio escabreado, pois passei as mãos pelo ferimento e senti o buraquinho. Como não tinha saída pelo lado da frente, percebi que a bala estava pelas costas. Onde, eu não sabia. Mas sangrava um pouco. A dor era fraca e resolvi sair da maca e ver a tal janela. Abri devagar para não atrair o sentinela que estava do lado de fora no corredor da frente. A janela dava para a varanda que circundava, lá por cima, o pátio interno. Não vacilei e me mandei por ali, fazendo a volta na tal varanda. Fui até o outro lado. Havia uma escada de ferro, dessas em caracol. Fui descendo até o térreo e tentei fugir pela saída das ambulâncias. Mas lá estava coalhado de soldados do Exército e de tiras, comandados por um general, Zenóbio da Costa, que gritava muito com o povo que estava na rua. Dei para trás, e no pátio havia um muro não muito alto”. Na primeira metade da década de 50, o Pronto-Socorro sofreu uma completa reforma, originando o atual Souza Aguiar. A atual Emergência fica no 1° andar (térreo), a sala de raios X, no 2° andar, e a sala de cirurgia, no 3° andar, como em abril de 49. Ainda não existia o prédio do HEMORIO, separado do Pronto-Socorro justamente pelo muro mencionado. João prossegue: “Não tive dúvida: pulei o tal muro e mais um outro que dava nos fundos de uma casa velha que era ao lado do Souza Aguiar. Na tal casa havia uma porta que estava fechada. Tive a idéia e bati na porta umas duas vezes e bem forte. Veio um homem, abriu e perguntou de onde eu saíra. Olhei para dentro e vi que era uma casa funerária e que estava preparada para um velório. (...) Entrei por um corredor cheio de caixões e dei na rua. Mas fui me mandando e o cara atrás, fazendo psiu, psiu, ei...”. A Capela Funerária Santa Terezinha ainda está lá, separada do Hospital por dois muros. João virou à direita, entrou pela Rua Visconde do Rio Branco e sumiu na Rua Gomes Freire: “Eu estava com o paletó, mas sem a camisa, o que dava uma aparência estranha. Mas que remédio? Era a roupa que eu tinha. A camisa um pouco ensangüentada tinha sido garfada no hospital. Praxe da casa. Então fui na direção de um táxi. O chofer ainda olhou meio apalermado, mas dei a ordem firme: Toca para o Flamengo, Rua Paissandu. Dei a ordem assim como marginal e acho que ele achou melhor obedecer e tocou para o Flamengo. Meti a mão no bolso e achei uma nota de vinte. O táxi foi doze e dei quinze para o chofer. Então fui à casa de um amigo ali na rua Barão do Flamengo, arrumei outra camisa e um médico que veio examinar o ferimento”. O doutor Nova Monteiro foi quem extraiu a bala: “Tirei esta bala com anestesia local na casa dele. A bala bateu no osso e ficou ali mesmo. A Hilda telefonou e eu fui lá. Tirei a bala em casa. Peguei a caixinha de ferro. Anestesia local e tirei em casa”. João Saldanha tornou-se o que, no jargão partidário, chama-se funcionário: “Saí pela Argentina, Chile, México. Na cidade mexicana de Vera Cruz peguei um navio rumo à França, passando pela Espanha”. Ao chegar, foi contratado pela agência de notícias de Aldo Savério: “O objetivo inicialmente seria o da chegada do exército de Mao em Pequim. Mas me atrasei um pouco na viagem. Saí de Paris para Praga. De lá a Moscou e daí, pelo Transiberiano, até perto de Mukden, capital da Manchúria. Como havia sido uma zona conflagrada, o trem parava às vezes vários dias em um local qualquer. Entrei na China pela Mongólia Interior, onde fica Chita. Dali, parando e andando de trem para Po-He-tu, Tsar-Lan-dum, Tsi-Tsi-har. Até Harbin o trem foi relativamente rápido. (...) Na Sibéria chegou a ter uns trinta vagões e mais os de carga. Mas quando pulamos para a Mongólia, numa bitola bem mais estreita, não passava de cinco ou seis carros. (...) Não aconteceu nada de anormal e fomos tomar um ônibus velho, já perto de Chang-chun, que, aliás, estava bem destruída: as casas e edifícios da bela cidade seriamente danificados. (...) E, caramba, já tínhamos passado por várias cidades grandes, principalmente na Manchúria, que estavam praticamente intactas. Harbin, importante entroncamento ferroviário, Mukden, uma cidade moderna. Dali, nós demos um pulo até a península da China, que dá para o Mar da China, e pude ver Port Arthur e Dairen. (...) Ouso dizer que Dairen, por exemplo, cidade de um milhão de habitantes na época, era muito parecida com Porto Alegre. (...) Tínhamos três intérpretes muito bons. Chegamos a ser quinze, mas normalmente não passávamos de seis. Os outros foram até Pequim, no dia 2 de outubro de 49, e se mandaram de volta. Os intérpretes falavam bastante bem o Francês e o Inglês. Um deles falava Russo. (...) A chegada em Pequim das tropas de Mao foi muito bem programada. Quando lá aportamos, no dia 2 de outubro, eles já estavam lá há muito tempo e Chiang Kai-shek tinha escapado para Hainan, ilha perto de Cantão, no extremo sul”. Saldanha não queria perder a Copa do Mundo. Seu trabalho na China estava concluído. Então não teve dúvida: “Resolvi por conta própria dar um pulo no Brasil. Com o fim da Copa, voltei para a França”. Mas isto é estória para uma próxima coluna. |
| O SALDANHA DESCONHECIDO (1947-1948) |
No dia 10 de julho de 1947, na capital bandeirante, num amistoso, João Saldanha estreou como técnico de futebol, dirigindo interinamente a equipe na convincente vitória por 4x3 sobre o bicampeão paulista, o São Paulo. Mas na política, as coisas não iam bem. No mês anterior, a ofensiva reacionária seguira desenfreada. No plano externo, as classes dominantes pretendiam que o país rompesse relações diplomáticas com a União Soviética, o que se deu em 21 de outubro. Internamente, planejava outros golpes, incluindo a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas. Foi no campeonato de 47 que Didi começou a chamar atenção, atuando pelo Madureira, que o contratara junto ao Rio Branco, de Campos. Com apenas 19 anos de idade, o jovem craque despertou rapidamente o interesse do Botafogo e do Flamengo. Entretanto, o técnico rubro-negro, Flávio Costa, achou que Didi tinha um pescoço muito grosso, necessitando, talvez, ser operado. Já o Botafogo, quando soube que o garoto era alvinegro, entrou na briga com uma proposta concreta, mas Aniceto Moscoso, presidente do Madureira, regateou e pediu para pensar, embora dando-lhe a preferência. Depois, o Glorioso recuou, não desejando entrar num leilão com o novo concorrente, o Fluminense. Mas caso insistisse, teria ficado com ele. A compra de Didi virou idéia fixa do treinador Ondino Vieira. Vezes sem conta, ele pediu a Nelson Cintra e João Saldanha que comprassem o passe do meia: “El negro es un fenómeno. Hay que comprar-lo”. Saldanha dava de ombros: “No hay plata, Dom Ondino”. Ondino argumentava: “El tipo valerá um millon dentro de um ano”. Saldanha apenas lamentava: “Paciência, Ondino. Paciência...”. Em 12 de dezembro, Carlito Rocha foi eleito presidente para o biênio 1948-1949, tomando posse em 2 de janeiro de 1948. Inteligentemente, manteve Saldanha no posto de subdiretor de futebol, subordinado ao novo departamento técnico-administrativo, chefiado por Nelson Cintra, que, no entanto, licenciou-se por motivo de uma enfermidade. Carlito então comandou o departamento ele próprio, apoiado por Adhemar Bebianno. Carlito foi logo fazendo mudanças corajosas, começando por Ondino, substituído por Zezé Moreira. Infelizmente, devido à vida atribulada de militante, João Saldanha foi acometido de tuberculose, sendo obrigado a se internar no Sanatório Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Tão logo se restabeleceu, retornou ao Botafogo, embora recolhido. Em 7/01/1948, a Câmara Federal cassou os mandatos comunistas por 179 votos (entre eles, Juscelino Kubitschek) contra 74 votos (Barbosa Lima Sobrinho, entre outros). Foi uma vitória estratégica do imperialismo norte-americano. Parte da bancada udenista votou contra, mas Gaspar Dutra comprou votos, ameaçando, inclusive, dissolver o Congresso caso o projeto não passasse. Em 11 de janeiro, a Mesa do Senado declarou extinto o mandato de Luiz Carlos Prestes. No dia anterior, a Mesa da Câmara fizera o mesmo com os deputados. Isto às vésperas de receber as Mensagens 61 (31/01/1948) e 62 (4/02/1948): respectivamente, um projeto de lei alterando o decreto-lei 395 e um anteprojeto do Estatuto do Petróleo, urdidos desde março de 47. O decreto-lei 395, de 29/04/1938, declarou de utilidade pública o abastecimento nacional de petróleo, nacionalizou a indústria de refino e criou o Conselho Nacional de Petróleo (CNP). As Mensagens compõem a legislação que falta para regulamentar o art. 153 da Carta de 46. Segundo a revista Time, de 26/04/1948, a missão de prepará-la coube ao embaixador William Pawley, porta-voz da Standard Oil, então enviado por Truman para o lugar de Berle Jr. Assim que Pawley deixou o país, surgiu o anteprojeto. O tal Estatuto do Petróleo permitia que pessoas físicas estrangeiras ou sociedades com sede no país, regidas por leis brasileiras, controlassem até 40% das ações nominativas de companhias que viessem explorar a indústria de refino e o transporte do petróleo bruto, de produção nacional, ou importado. Mas uma sociedade anônima se controla com 40%, 30% ou até com menos disso – denunciavam os nacionalistas. Mobilizados pelo general Horta Barbosa, ex-presidente do CNP (1938-1943), levantaram-se centenas de oficiais do Exército e altos chefes militares da reserva, parlamentares, governadores, prefeitos, jornalistas, a UNE e os trabalhadores, em primeiro lugar, os operários da Light. A imensa receptividade popular desembocou na criação do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, primeiro no Distrito Federal (14/04/1948), depois em outras capitais. A seção gaúcha, por exemplo, tinha como presidentes de honra o governador Walter Jobim e Estillac Leal, comandante da 3ª Divisão de Infantaria. Fruto dessa luta popular gigantesca, em fins do ano, Dutra ordenará o “congelamento” de sua tramitação. A situação presente era de caça aos comunistas. Em 3 de janeiro, em São Paulo, as oficinas do jornal Hoje foram assaltadas. Os funcionários gráficos foram condenados pelo titular da 4ª Vara Criminal. Em março, apesar de escolhido pela ONU para participar do projeto de construção da futura sede da organização, Oscar Niemeyer, militante do PCB, foi proibido de entrar nos EUA. No mês seguinte, foram presos mais de duzentos militantes. Em 6 de abril, a Imprensa Popular foi suspensa por 6 meses. No dia 14, o Supremo Tribunal Federal (11 votos a 0) não conheceu do recurso extraordinário contra a sentença de fechamento do Partido. No dia 17, como em 8 de janeiro, as oficinas da Tribuna Popular foram empasteladas por policiais federais. Os vinte e três gráficos foram espancados, presos, processados e condenados a diversas penas de reclusão. Somente em 06/07/1955 (decreto legislativo n° 70), eles serão anistiados pelo Congresso Nacional. Em 18 de abril, no Recife, em cumprimento a uma portaria do ministro da Justiça, a polícia fechou por 15 dias a Folha do Povo. O combativo jornal comunista circulou pela primeira vez em 10/06/1935. Será definitivamente fechado após o golpe de 64. Em dezembro, Saldanha desfrutou de grande alegria com a conquista do título de campeão carioca de 48, mas isto durou pouco tempo. Só alguns meses. Na próxima coluna, eu contarei o que aconteceu. |
| O SALDANHA DESCONHECIDO (1947) |
Em 18 de setembro de 1946, foi promulgada a nova Constituição brasileira. Os constituintes haviam trabalhado em clima de estado de sítio, pois Dutra acionou o dispositivo repressivo estadonovista para afastar o povo dos debates. Em 10 de dezembro, o PCB reuniu o comitê central, decidindo, daí a uma semana, pela escolha de João Saldanha para compor a comissão executiva da União da Juventude Comunista (UJC), ao lado de Apolonio de Carvalho e Gervásio Gomes de Azevedo. A poucos meses de completar 30 anos, Saldanha era, na época, o secretário político do comitê distrital da Lagoa, o mais jovem dos dirigentes dos comitês do Partido no Distrito Federal. O ano de 1947 começou com a mobilização popular em torno do pleito (19 de janeiro) para deputados federais e senadores (em alguns Estados), deputados estaduais, governadores e vereadores (no DF). No dia 3 de janeiro, o PCB comemorou o aniversário de Prestes. Uma Comissão de Festejos, presidida por Mário Lago, realizou várias festas populares, uma delas na Praça Serzedelo Corrêa, em Copacabana, promovida pelos Comitês Distritais da Lagoa (João) e da Gávea (Aristides). No mês seguinte, dia 12, outro aniversário foi muito festejado, o de Olga Benário. Outra vez, os comitês de João e de Aristides uniram esforços para um ato público na sede do Comitê Distrital da Lagoa, na Rua General Polidoro, 155, em Botafogo. Nas eleições, a Chapa Popular (comunista) reafirmava as bandeiras já defendidas na Constituinte. Propostas progressistas, mas impraticáveis pela inalterabilidade das estruturas sociais e políticas de poder. O Diário Carioca estampou: “O Zé Povinho carece de defensores nos corpos legislativos, mas, tais defensores não podem ser os cafuzos ignaros, os porta-votos, os pacholas desconhecidos. A presença da boçalidade nos dois ramos do congresso nada significa além do seu descrédito e desmoralização”. Segundo A Noite, “o que vai vencer é a escória da boçalidade mais ignara”; a campanha comunista consistia em “atiçar a ambição nas classes baixas, instrumentando os ressentimentos e a inveja do populacho”; os candidatos do PCB, no legislativo, seriam “patetas a tolejar sobre as complexas tarefas da elaboração legislativa moderna”, pretendendo este partido “encher as câmaras de cozinheiros e lava-pratos, para que eles façam o papel melancólico que coube à representação dita classista e à iletrada bancada bolchevista”. Mas o povo venceu, sensacionalmente. O PCB elegeu a maior bancada no DF: 18 de um total de 50. Graças ao seu apoio, Ademar de Barros derrotou o PSD e a UDN, elegendo-se governador paulista. Em dezembro, o PCB já se consagrara como o maior partido em Recife (12 de um total de 25), São Paulo, Santo André e Santos. Um avanço notável, mas superestimado pelo Partido. Mas não havia só política na vida de Saldanha. No dia 31 dezembro, Adhemar Bebianno deixou a presidência do Botafogo, mas consentiu em continuar oficiosamente até a escolha do sucessor, o que se deu em 14 de fevereiro, com a eleição do industrial e banqueiro Oswaldo Costa, por sugestão de Carlito Rocha e Luiz Menezes. Bebianno assumiu então o cargo de vice-presidente de futebol, juntamente com Carlos Saboya e Luiz de Paula e Silva. Nelson Cintra continuou à frente do departamento técnico-administrativo, subordinado a Bebianno, enquanto João Vaz cedeu o lugar de diretor de futebol a Saldanha. Na última semana de fevereiro, o chefe do setor trabalhista do Departamento Federal de Segurança Pública, Cecil Borer, opinou sobre o pedido de registro do Copacabana Atlântico Club junto à Delegacia de Costumes e Diversões. Eis sua resposta: “O Copacabana Club, com sede à Avenida Copacabana, 1102, 13° andar (...) é um reduto político, dos muitos que o Partido Comunista do Brasil faz fundar, com o rótulo de sociedades esportivas, culturais ou cívicas. (...) O que ora se verifica com a sociedade em causa, que tem como presidente o indivíduo Aristides Saldanha, ativo militante comunista, membro do corpo jurídico do partido, como advogado que é, além de ser secretário geral do Comitê Democrático Progressista de Copacabana e, como secretário, outro militante, Lívio Costa, que é estruturado na célula Ipanema. Além dos indivíduos já mencionados, o Copacabana Club tem como diretor geral de esportes o comunista João Alves Saldanha, secretário político do Comitê Distrital da Lagoa”. Na seqüência, em abril, o major Adauto Esmeraldo opinou pelo indeferimento, tendo em vista a participação do Copacabana em competições promovidas pelo PCB, estando a entidade “empenhada em desservir à democracia, em benefício dos ideais políticos dos totalitaristas de esquerda”. Em 6 de março, João Saldanha seguiu com o Botafogo para a segunda excursão do ano ao Paraná (a outra, no início de fevereiro). Na véspera, ele visitara a redação da Tribuna Popular, diário do PCB, como já foi dito em outra coluna. Saldanha demonstrou o seu entusiasmo pelo chamado Campeonato Popular, organizado pelo jornal em conjunto com clubes amadores. João enfatizou: “O Campeonato Popular abre grandes possibilidades, dada a projeção que naturalmente terão seus mais destacados participantes, jogadores que nunca tiveram oportunidade de aparecer no cenário esportivo do país. (...) O Botafogo está certo de que, entre os players que intervirão no certame organizado pela TRIBUNA POPULAR, encontrará elementos úteis ao seu quadro de profissionais. Faremos tudo para nos fazer representar no maior número de jogos possível, a fim de observarmos os craques, tão necessários à renovação de valores futebolísticos”. O regulamento dividiu a cidade em 3 zonas: sul, centro e norte (desdobrada em 4 séries). A idéia empolgou os bairros e cerca de 4.500 jogadores se inscreveram. A abertura foi em 19 de março, com desfile no Campo de São Cristóvão, local tradicional de eventos do PCB. Ali, em 15 de novembro, as escolas de samba haviam desfilado para comemorar a proclamação da República e coletar fundos para o jornal. Em 6 de abril, começaram os jogos da zona sul, no campo do Carioca Sport Club, na estrada Dona Castorina. (Jardim Botânico). Desta primeira rodada, participaram 10 clubes dos seguintes bairros: Catete, Botafogo, Copacabana, Gávea e Ipanema. A organização foi confiada a Sandro Moreyra, repórter esportivo da Tribuna Popular, tarefa que incluía as funções de juiz e delegado, juntamente com João Saldanha e outros militantes. Entretanto, ao direito de existência do PCB opunha-se a reação tupiniquim, alinhada à guerra fria promovida pelos EUA: protegendo Franco (Espanha) e Salazar (Portugal); reabilitando generais nazistas; apoiando golpes de Estado (Paraguai), entronizando, sangrentamente, o rei na Grécia; reprimindo os comunistas na França e na Itália; mantendo forças militares em todos os continentes para a guerra nuclear contra a URSS e as jovens democracias populares. Nascia a diplomacia atômica para deter a “ameaça comunista”. No dia 2 de abril, O Globo bombardeou a UJC, falando em “Deus, Pátria e Família” (ao estilo integralista) e apavorando a pequena burguesia com sua linguagem imbecil. No mesmo dia, Saldanha declarou à Tribuna Popular: “É claro que o bom êxito dos nossos trabalhos só poderia enfurecer determinados setores da reação, dos interessados em conservar a situação de miséria do nosso povo, em que seja barrado o progresso do país. O desespero desses senhores é uma prova de que a nossa organização está sendo, de fato, vitoriosa; somente nos pode encorajar a fim de que sigamos em nossa luta pela educação de nossa juventude”. No dia 15, Dutra suspendeu a UJC por 6 meses, numa violação do §12 do art. 141 da Constituição. “Surpreendidos”, a UJC e o PCB protestaram. Tarde demais. Em 7/05/1947, por 3 votos a 2, o TSE cassou o registro do PCB. Em conseqüência, foram fechados mais de mil comitês distritais, apreendidos arquivos e fichários e empastelada a imprensa comunista. No mesmo dia, Dutra assinou o decreto-lei 23.046, fechando a Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB), sucessora do MUT (Movimento Unificador dos Trabalhadores), e as uniões sindicais estaduais. Foram destituídas as diretorias de mais de 400 sindicatos. Foi-se a autonomia sindical. Daí para frente, os candidatos a cargos de direção seriam obrigados a apresentar um atestado de ideologia fornecido pela polícia. Levas de demissões de servidores públicos. Apesar do rude golpe contra o Partido, João Saldanha não foi imediatamente atingido pela repressão e continuou dirigindo o futebol do Botafogo: “Não conseguiam me prender: eu não dava sopa”. Mas isto não durou muito tempo. Em 3 de agosto, ao discursar num comício relâmpago, ele foi preso e levado à Polícia Central. Depois de devidamente identificado, foi recolhido à sala de detidos, onde passou a noite. Na manhã seguinte, foi libertado. E seguiu a vida. Mas isto será contado na próxima coluna. |
Páginas(s): 1 2




