INTRODUÇÃO

O presente livro custou-me nove anos de trabalho. Contemporâneo dos fatos examinados, jamais concordei com a tese dominante de que o escrete tricampeão do mundo fora idealizado por Zagalo, isoladamente. Na verdade, a formação de um time de futebol (o escrete nacional também é um time) resulta de um trabalho de anos. Comumente, é tarefa coletiva. De fato, o embrião do escrete de 70 pode ser observado no time de Vicente Feola, na Taça das Nações (1964). E mais claramente no time de Aymoré Moreira, na excursão de 1968. Saldanha sempre insistiu na influência de Aymoré em suas convocações. A sua própria influência no time de Zagalo é ainda mais evidente. Por outro lado, também jamais aceitei a falaciosa tese que atribuía a Saldanha a preferência por um esquema superado (o 4-2-4).

Do inconformismo com a versão oficial, evoluí, em julho de 2000, para a ideia de investigar as forças que tramaram a derrubada de João Saldanha do comando do escrete nacional. Concluída essa tarefa em outubro de 2001, considerei necessário também escrever uma biografia de Saldanha, concluída em fins de 2009. Mas o volume, quase mil laudas, inviabilizou a sua publicação, sobretudo diante do estalar da mais recente crise sistêmica do capitalismo. Entretanto, a investigação permitiume conhecer o processo histórico de formação e desenvolvimento da vasta cultura política e esportiva de João Alves Saldanha, aplicada numa tempestuosa militância revolucionária e no exercício de uma vitoriosa carreira de desportista e de jornalista. Longe de pretender esgotar o assunto, tratei disso nos dois primeiros capítulos. Resta dizer que o presente livro denuncia um fato escabroso, reflexo perfeito de período tenebroso do Brasil e do futebol em particular. Advirto que não é obra imparcial, pois toma partido. Estou com Paulo Cavalcanti, para quem “seria ilusório admitir que o historiador se desengajasse do seu meio e dos seus sentimentos, a ponto de julgar os outros como fantasmas de um mundo estranho, descompromissado de preferências e antipatias”. Que o leitor julgue quem são os implicados na guerra suja contra Saldanha. A correta compreensão desse drama exige o conhecimento da realidade política de então, fartamente denunciada ao longo do livro.

Não foram poucas as dificuldades enfrentadas na investigação e elaboração do livro. Importantes depoentes já não existiam há dez anos. Faltaram-me, depois, outros acessos. Entretanto, dezenas foram os que, em algum nível, conviveram com Saldanha e se dispuseram pacientemente a falar. Minha gratidão a todos. Meu agradecimento aos servidores da seção de periódicos da Biblioteca Nacional e a Vilma Oliveira, chefe da Biblioteca da ABI — Associação Brasileira de Imprensa. Minha gratidão a Luiz Lobo. Destaco de forma muito especial a ajuda de Ivan Cavalcanti Proença, Raul Milliet Filho e Sylvio Monteiro Carneiro Campello. Como é de praxe, friso que sou o único responsável pela interpretação das fontes e dos depoimentos.

Finalmente, quero expressar meu imenso pesar pelo fato de Maninho (Emmanuel Sodré Viveiros de Castro) não ter visto o livro concluído. Dois meses antes da sua morte, em 6 de dezembro de 2005, conversamos por telefone e ele disparou: “E o livro?” Eu acabara de localizar a foto do time campeão juvenil de 1935. Ele insistiu para que eu fosse a sua casa para mostrar a matéria e aprofundarmos o assunto. Contou que ainda mantinha correspondência com os craques remanescentes daquele time. Mas fiquei lhe devendo, pois pretendia, primeiro, comprar a foto publicada no Jornal dos Sports para lhe presentear. A memória de Maninho, imperecível, se confunde com o próprio Botafogo.

Carlos Ferreira Vilarinho