O VELHO, E DIGNO, JOÃO

Ivan Cavalcanti Proença*

Quem sabe exista um certo fatalismo editorial, bibliográfico: alguém teria que escrever e alguém teria que publicar um livro assim, com justo e notável impacto na abordagem do mundo do futebol brasileiro: na realidade, seu contexto constrangedor, seu universo de alguma grandeza (dentro de campo) e muita miséria moral (fora dele). E tal livro só poderia ser este, de Carlos Ferreira Vilarinho, e em torno da vida (e muita obra, digamos) de João Saldanha, o João guerreiro e militante e sem-medo e tudo, a mais importante figura extra-campo da história de nosso futebol.

O livro, apoiado em fatos e noticiário detalhado, em depoimentos, tudo entremeado pelas intervenções de João, esclarece os inúmeros episódios e acontecidos ao longo da atuação de João no futebol, basicamente no que se refere à Copa de 70, antes, durante e depois.

A ânsia de posse (portanto, de poder), associada às espertas neutralidades, ao adesismo e à conveniente acomodação funcional, favorecendo não raro as traições e distorções do fato — tudo reinante no futebol brasileiro — aqui vêm à tona, com todas as letras e toda clareza: afinal. E não esquecer que — em se tratando da Copa de 70 — muitos dos fatos ocorrem sob o manto dos 20 anos da Ditadura militar e civil de 64, até 84. Agrava-se o contexto já poluído em si. E o livro não camufla nem dribla. Expõe, através de documentos e provas de diversa natureza, tudo que ocorreu à época, centrado no mundo do futebol e na figura de João Saldanha. Exaustiva, minuciosa e notável pesquisa, por quase dez anos, resultou nesta obra de Vilarinho. O verbo do título, derrubou, aqui no livro em pauta, só faz lembrar aquela figura notável de nossa infância, o boneco que, ao ser derrubado, sempre se levantava e se postava novamente erecto, firme, inabalável — o nosso João Teimoso.

Os colaboracionistas, os invejosos (da coragem, digna, do João), os que seguiram a “moda” de época, sintetizada no dedo-duro, os “coleguinhas” de João, fracos de caráter e avessos à luta sócio-política (e cultural. Por que não?), toda essa gente não esqueça: se o castigo vem a cavalo, a verdade vem ao passo de carroça (ou até, quem sabe?, a jato), mas vem algum dia.

Este livro, tal como concebido e escrito, se tenciona com a vida e o mundão de João Saldanha. Tanto, que bem cabe a quase máxima camoniana: “transforma-se o amador na coisa amada”.

*Ivan Cavalcanti Proença é Professor, Mestre e Doutor em Literatura. Autor de inúmeros livros de Cultura e Literatura Brasileira.