É sempre ótimo que a memória de João Saldanha continue viva e cada vez mais em alta entre nós, seus antigos e eternos admiradores. Tive o especial prazer – e honra – de trabalhar com o João, dividindo comentários, durante cinco anos na Rede Manchete em sua época áurea, quando ela conseguiu até a façanha de comprar eventos exclusivos de futebol – acreditem – deixando a Globo fora da jogada. Outros tempos...

Carlos Ferreira Vilarinho, com esforço e dedicação, gastou muito esforço e precisou depois de um paciente trabalho de depuração para nos entregar uma parte fundamental da vida esportiva de Saldanha, mostrando os primeiros e gloriosos tempos no Botafogo quando já inovava como dirigente, depois como treinador campeão, simples e eficiente e, finalmente, nos tempos conturbados da Seleção, quando as interferências políticas e até a imensa pressão de todos os segmentos acabaram interrompendo o trabalho que ele plantou com coragem e dedicação.

A obra de Vilarinho tem o mérito de mostrar que, apesar dos retoques importantes de Zagallo, a base da seleção campeã de 70 era mesmo a de Saldanha, começando pelo aspecto psicológico, ao resgatar a coragem e a confiança sob o signo das ”feras”. Depois, porque os jogadores eram praticamente os mesmos e algumas improvisações como as de Piazza na zaga e Rivelino na ponta já tinham sido ensaiadas e eram uma alternativa que depois acabou se consolidando.

Saldanha poderia até ter ido à Copa do México com apoio da maioria dos craques da Seleção que o respeitavam muito mas, como mostra o livro de Vilarinho, havia inimigos à espreita e acontecimentos inesperados que fizeram o caldo entornar.

Claro que os militares não gostavam dele, comunista convicto, homem de esquerda radical e que jamais negou as suas convicções e o seu ideal.. O “establishment” o repudiava mas foram necessários alguns acontecimentos especiais para empurrá-lo até a degola e, sem dúvida, entre os mais importantes o afastamento e a oposição de Pelé que não aceitava críticas ou limitações e a briga com Yustrich, desnecessária mas que foi supervalorizada ao ponto de expô-lo como um desequilibrado. Formou-se o tumulto na hora errada e um amistoso inoportuno contra o Bangu acabou servindo como pretexto para a “intervenção”.

Saldanha sempre foi mais do que apoiado, até venerado, pelos torcedores e teve, pelo menos na mídia carioca, amigos que lhe deram força. O seu papel como treinador nas Eliminatórias foi fundamental para resgatar o amor-próprio da Seleção,combustível decisivo para a conquista de 70. O caso Dario, de tanta repercussão e até hoje discutido na mesas redondas, acabou superdimensionado e acredito que não teve a ver com a sua saída. Médici queria Dadá na Seleção, foi atendido por Zagallo mas o assunto era fraco para conseguir tirar Saldanha do cargo. Só apimentou o caso, mas o tumulto interno que o livro de Vilarinho acentua é que empurrou a bola de neve até a demissão. Tudo poderia ser contornado, mas Havelange e Pelé queriam mesmo mudar.

Para um homem da independência e da forte personalidade de João era mesmo muito difícil conviver com enquadramentos e determinações vindas de cabeças tão conservadoras.. Saldanha saiu da Seleção para entrar na História e nem precisava levantar o caneco no México para isso. O Brasil já o consagrara e continuou consagrando e o livro de Vilarinho mostra com precisão o suspense e as reviravoltas de uma fase particularmente emocionante da vida desse homem extraordinário.

Márcio Guedes

Márcio Guedes é jornalista, comentarista dos programas “Linha de Passe — Mesa Redonda” (ESPN Brasil) e Esportvisão (TV Brasil), e colunista do caderno esportivo “Ataque”, do jornal O Dia.